sexta-feira, 13 de abril de 2018

Poema periférico para Francisco Távora



Poema periférico para Francisco Távora

O arco da Rua de São Bento já não está ali
Na Praça de Espanha ninguém repara
Há uma febre na pressa plural da cidade.
Nós ouvimos o que dizem as pedras
Na antropologia das gerações passadas
Que por aqui deixaram beijos e lágrimas.
Nós levamos no pálio a naveta do incenso
No Senhor dos Passos ou no Corpo de Deus
Entre os clarins os estandartes e as bandeiras.
Somos bisnetos de Montarroio de Mascarenhas
Nós sofremos de jornalite aguda, essa infecção
Para a qual não existe nem remédio ou vacina.
Somos nós afinal que contamos aos outros
As suas próprias raízes, histórias e peripécias
Mesmo que ninguém tenha reparado nisso.
Temos no nosso olhar um gabinete de estudos
Na voz temos uma grande sede de civilização
Numa cidade que há muito não pára de crescer.
Partimos sempre do pó para a posteridade
Temos um sonho impossível de concretizar
Parar uma hora o Sol sobre Lisboa ao meio-dia.
Só assim haveria  algum registo do brilho
Da luz forte das pedras e das ruas de Lisboa
Mas afinal o Sol não se demora na cidade.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia de autor desconhecido)   

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Balada da Leituria na Rua D. Estefânia



Balada da Leituria na Rua D. Estefânia

Três anos a porta aberta
Em saudável teimosia
Aqui a hora é certa
O tempo é de Leituria.
«Transporte Sentimental»
Hospital, Pediatria
«Mau Tempo no Canal»
É tempo de João Garcia.
Que vinha da formatura
Num eléctrico onde se lia
Um destino de amargura
No romance que vivia.
Nasceu perto deste espaço
Minha filha Ana Maria
Livraria foi o nó e o laço
No livro que ela escrevia.
Num memorável lugar
De seu nome Leituria
É que apetece ficar
Assim não houvesse dia.
Como se a convenção
Compromisso de alegria
Fizesse mais forte a razão
De ser desta Livraria.

José do Carmo Francisco

terça-feira, 27 de março de 2018

As casas de Martine



As casas de Martine

São feitas de memória em inventário
As casas de Martine de Norte a Sul
País real para além do calendário
Fixando numa cor que hoje é azul.
São mais que sete casas do poema
São mais que do largo as duas ruas
O poço no meio saiu dum cinema
Cerromaior traz consigo outras luas.
Catálogo de uma viagem a Portugal
Janelas, portas, chaminés, telhados
Olhar do tempo efectivo e natural
Em casas de habitantes afastados.
Casas a quem quero como minhas
Com balcões para eu ficar todo o dia
Águas-furtadas palavras tão sozinhas
Como a força desta nova geografia.

José do Carmo Francisco   

quinta-feira, 15 de março de 2018

Balada da Rua Morais Soares 95 A


Balada da Rua Morais Soares 95 A

Por insólitos factores
E razões particulares
Saiu dos Restauradores
Foi para a Morais Soares.
Continua a ser o Pirata
Com ou sem perna é opção
É um aperitivo de prata
Um digestivo de eleição.
Seja qual for a hora
No balcão em ritual
A pressa já se demora
Na liturgia sem missal.
Óh Ribeira dos Amiais
Onde era longo o Inverno
Oiço o cantar dos pardais
Tempo velho e moderno.
Saudades do espaço antigo
Bois, carroças e cavalos
Na adega dum amigo
O vinho de três estalos.
Nas carradas de tijolo
Casas novas num casal
Vinho fresco é consolo
No Verão de Portugal.
Hoje na Morais Soares
Continua a aventura
Dos piratas sem lugares
Nas ruas da amargura.
Num tempo de alegria
Um intervalo em pessoa
Fica o Pirata em poesia
Nesta rua de Lisboa.

José do Carmo Francisco 

quinta-feira, 8 de março de 2018

Poema para uma fotografia de António Capela


Poema para uma fotografia de António Capela

Sabemos alguma coisa sobre o efémero
Das fotografias num certo dia de manhã
Na estrada para os lados de Torres Vedras.
António Capela regista o esforço dos ciclistas
Está frio e João Rocha bate com os sapatos
Contra o vento das praias de Santa Cruz.
Os roladores guiam o pelotão sportinguista
Emiliano Dionísio fica para trás na estrada
Guardando-se para brilhar na pista à noite.
Sabemos muito pouco sobre o efémero
Quase nada sobre o pó e a posteridade
Que o futuro nos reserva tão de surpresa.
Ficamos nas fotografias, teimosos,
Como se a eternidade fosse possível
No preto e branco de cada momento.

José do Carmo Francisco   

(Fotografia de António Capela)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Balada para a Pastelaria «Orion»


Balada para a Pastelaria «Orion»

Na «Orion» Pastelaria
Os anos correm velozes
Onde era uma vacaria
Hoje é confusão de vozes.
Nas quatro vezes por dia
Passava em frente a correr
Quem diria, ai quem diria
Que era este o Lugar de Ser.
Muitos os poemas escritos
Contos e crónicas também
Mesa de choros e de gritos
Que não chegam a ninguém.
Homens de fato cinzento
Tão cinzento como é o dia
Lá fora está muito vento
Aqui nasce a nova alegria.
No retrato do fundador
Senhor Armando é sorriso
Os doces são um amor
No meu vazio indeciso.

José do Carmo Francisco 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Poema periférico para Victor L.


Poema periférico para Victor L.

Os meninos não deixaram de brincar
Veio o sol, há mais pneus e corridas
As poucas lágrimas enxugam depressa.
Eles não sabem nem este é tempo de saber
Os pais, os tios e os avós podem descobrir
Por quem os sinos dobram nesta sexta-feira.
Morre o corpo, fica a alma e toda a sua paz
Na sementeira de esperança que não se perde
Há um segundo pai todos os dias nessas horas.
A minha filha Marta e o meu neto António
São um mundo novo ligado pela sua ternura
Tantos anos depois tudo isso está e continua.
Nem lágrimas intercontinentais nem nada
Do lado do espanto, só a dôr, só a revolta
E os meninos não deixaram de brincar.

José do Carmo Francisco

(fotografia de José Antunes)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Poema para Os corvos de Francisco José Viegas


Poema para Os corvos de Francisco José Viegas

Meu neto Tomás nega-me (Stop!) de modo firme
A possibilidade de brincar com os corvos do Paragon
Tal como antes fizera junto à casa de Charles Gounod
Os dois a caminho do grande planalto de Blackheath.
Não admira que ele não conheça o poema «Os corvos»
Tirado de um livro de 2001 intitulado «Metade da vida»
Que o próprio autor definiu como um luxo e uma vaidade
Quando meu neto Tomás nem sequer ainda tinha nascido.
De certeza Tomás não conhece o meu poema já antigo
Chama-se esse poema «O corvo de Papillons Walk»
Sobre o corvo que comia migalhas de pão dos meninos
De manhã a caminho da Escola Primária de Brooklands .
Somos corvos, nada mais do que corvos ansiosos
Por uma migalha de pão, de ternura ou de atenção
Nós que sabemos serem as palavras tão frágeis
Como as pétalas mais pisadas depois de um baile.
Mas isso era ir longe, para o lado de Maiakovski
E eu celebro o encontro com um poema curto
«Sobre o verde, um silêncio devastador.
Ouve-se em toda a ilha o seu aviso.»

José do Carmo Francisco    

(fotografia de autor desconhecido)  

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Balada para Teresa Silva Carvalho


Balada para Teresa Silva Carvalho

A tua voz tem a voz da Terra e do Mar
Voz com todo o tempo do Mundo
Uma voz que não se cansa de cantar
Num registo extenso e tão profundo.
Somos todos os filhos da madrugada
Que trazemos os caminhos no olhar
Escolhemos um roteiro noutra estrada
Onde ouvimos toda a Terra a respirar.
Há canções que se elevam da planície
Da monda, doutros trabalhos sazonais
Num CD de tão pequena superfície
Se juntam os seus sintomas e os sinais.
A tua voz é uma viagem pequenina
À terra da sementeira e da colheita
Traz uma canção que não termina
Porque tem o rigor de ser perfeita.

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Autor desconhecido)

sábado, 27 de janeiro de 2018

Rua Sacadura Cabral (Montijo)


Rua Sacadura Cabral (Montijo)

A minha infância cabe toda numa telefonia
Onda curta, média, modulação de frequência
O telefone que toca sempre ao fim do dia
Matos Maia sabe como manter a audiência.
O senhor Messias abre o dia na Rádio Rural
Para o «serviço seis, sala quatro, cama dois»
A radionovela parava então um certo Portugal
Até aos sete anos fui aquilo que serei depois.
«Candeeiros bem bonitos, modernos, originais»
Ouvia eu de Lisboa nos Emissores Associados
Hoje sei que tudo isso foi para nunca mais
Porque os modelos estão todos ultrapassados.
O comboio para Setúbal parava na Jardia
Montijo tinha uma estação CP hoje perdida
A minha infância ficou dentro da telefonia
Perdida em todas as mudanças desta vida. 

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Autor desconhecido)