quinta-feira, 20 de julho de 2017

Canção para Francisco Filipe Martins


Canção para Francisco Filipe Martins

(a Luísa Amaro)

Canção da Primavera nas guitarras
Na alegria teimosa de quem chora
Como barco de repente sem amarras
Como um tempo sem passado, só agora.
Só presente, só tempo que não muda
Porque a mágoa se instalou no olhar 
De quem nesta cidade já não estuda
E vai com o Mondego para o mar.
Canção da Primavera falsa ligeira
 Palavras que não sei não sou capaz
As lágrimas vão para além da Figueira
Misturadas com o rio mas logo atrás.
Ficou uma canção para o futuro
Repetida em serenata de alegria
No tempo que a morte fez escuro
Só há resposta da força da melodia.

José do Carmo Francisco     


(Óleo de autor desconhecido)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Canção Breve para Carolina


Canção breve para Carolina

Na mesa junto à janela
Uma sombra a cada esquina
Nasce à noite nova estrela
Nos olhos de Carolina.
Cidade que a luz revela
Silhueta pombalina
Entre o rio e a procela
Passa uma mulher-menina.
Que deixa as suas raízes
Num país num continente
Seu olhar tem dois países
Uma imagem diferente.
Na solidão mais povoada
Dum tempo em velocidade
Ninguém a vê assustada
Quando enfrenta a cidade.
Na mesa junto à janela
Uma sombra a cada esquina
Nasce à noite nova estrela
Nos olhos de Carolina.

José do Carmo Francisco     


(Óleo de Michael Malm)

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Balada para Dionísio Mendes em Coruche


Balada para Dionísio Mendes em Coruche

Por mais que tente e insista
No futuro que o esqueceu
Este filho de um motorista
Nunca irá para um Liceu.
Lá vem Álvaro Cunhal
Fato-macaco e lancheira
Do Norte de Portugal 
Passa a noite na Figueira.
Misturado na multidão
Na berma dessas estradas
No fim de uma reunião
Até amanhã Camaradas.
No quadrado das prisões
Vergonha de Portugal
Castigo de opiniões
De Peniche ao Tarrafal.
Do Aljube até Caxias
Vai a distância sofrida
Do que só encontra dias
Quando procura mais vida.
No carro do seareiro
Vai amizade e esperança
Os mimos vão primeiro
Logo a seguir à matança. 
Com o rancho melhorado
Os detidos desta prisão
Passam um melhor bocado
Com as coisas do carrão.
Nos Domingos de intervalo
Entre o trabalho aturado
A bicicleta é um cavalo
Que me leva a todo o lado.
Vem o Pachancho de Braga
Vem a Famel de Aveiro
Na prestação que está paga
Há um mundo novo inteiro.
Na mesa com telefonia
Copo de água a despistar
Rádio Moscovo anuncia
Tudo contra Salazar.
Descoberto o desconhecido
Nas notícias reveladas
O Mundo tem outro sentido
Vai para além das estradas.
Para Coruche e para Mora
Para Lavre e Azervadinha
Com notícias a cada hora
A terra não está sozinha.

José do Carmo Francisco  
      

(Fotografia de autor desconhecido)

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Pequeno retrato dum olhar de mulher


Pequeno retrato dum olhar de mulher

Existe, no olhar cansado de Fernanda, uma pequena mas dolorosa percentagem de melancolia. Como se surgisse, no seu campo visual, para além de eléctricos cheios como cachos de uvas, uma luz cinzenta capaz de tudo reduzir a escuro, a estranho e a triste. Um telefone sacode a monotonia da tarde. São pequenas conversas, pedidos de ajuda, desabafos, ligeiros acrescentos a outras conversas já passadas mas, afinal, sempre presentes. Ao fundo os livros arrumados nas estantes esperam de Fernanda a demorada atenção de quem sabe uma verdade essencial: depois da invenção da roda só o livro se pode comparar em importância na vida do Mundo. A roda deu origem a todas as viagens; o livro partilhou todas as aventuras do pensamento. Existe, no olhar cansado de Fernanda, uma busca incessante de harmonia. Aos poucos a porta da livraria transforma-se num quadro onde as personagens se cruzam ao ritmo de uma marcação teatral. Como se cada toque de campainha de eléctrico fosse um relógio a dar as suas badaladas para acordar Fernanda da sua melancolia. Existe, no olhar cansado de Fernanda, o prenúncio de um novo povoamento do seu espaço. A rua vai ficar mais alegre, as cores das pessoas e das coisas vão mudar, o tempo vai ter um ritmo de alegria e de descoberta, o calor do Verão vai trazer uma nova cadência aos dias de Fernanda que percorre, aos poucos, um caminho de imprevistas emoções.
Existe, no olhar cansado de Fernanda, uma inquieta mas teimosa procura de outros ritmos de vida e de outros lugares de ser. Onde seja possível conjugar todos os verbos de uma nova gramática de sons. Mais vivos, mais quentes, mais inteiros e mais felizes.    

José do Carmo Francisco

(Óleo de Fréderick Carl Friesske)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Uma gramática de luz



Uma gramática de luz

A cidade, esta cidade de Lisboa tem uma gramática de luz que só se descobre quando, por um acaso no seu quotidiano sempre igual, o cidadão que a habita se vê obrigado a levantar-se muito cedo. Por muito cedo entendemos as seis horas da manhã. Mas não só o levantar; era preciso levar um elemento da família ao local de trabalho num automóvel que por acaso tinha uma marcação á porta da oficina da marca antes das oito horas da manhã para a revisão dos 135 mil quilómetros. De Moscavide ao Aeroporto foi como se estivesse a chegar de uma viagem à Europa. A cidade começava a abrir os olhos e, tal como uma pessoa, dava início a mais um dia sacudindo o sono da noite e dando os primeiros passos. Era ainda muito cedo, tão cedo que cheguei á oficina às sete horas em ponto. Tinha sido uma viagem verde desde o verde simpático dos semáforos ao verde feliz das árvores da Avenida Defensores de Chaves. Pouco a pouco a luz avança contra a névoa, uma ambulância sacode a pacatez da avenida com o som estridente da sua urgência. Será um velhinho ou uma criança, o início ou o fim da maratona que é, afinal, a vida?. Não sei nem nunca saberei. A velocidade não permite a identificação. Estou sentado num velho automóvel à porta de uma oficina para entregar à competência dos técnicos a revisão dos 135 mil quilómetros. Entretanto a gramática de luz da cidade vai conjugando as várias formas do verbo sorrir. A mulher da limpeza, o mecânico a chegar, o segurança que sai de turno, todos me dizem bom dia e me abraçam num sorriso lento, cósmico e doce. E chega a minha vez de dizer em voz alta, embalado na gramática da luz: Bom dia, Lisboa! Minha Cidade, Meu amor!        

José do Carmo Francisco

(Fotografia de Alexandre Nobre)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Senhora do Monte


Senhora do Monte

Teu nome é princípio de oração
Palavra impressa numa pagela
A marcar um livro no cadeirão
Da casa da costura na janela.
Teus olhos são ponto e destino
Deste romeiro cansado no altar
Feliz por ser mais um peregrino
Com força de sorrir e de cantar.
Teu rosto é a capela tão perfeita
Que nela todo o tempo principia
A cruz entre esquerda e direita
É o centro do amor de cada dia.
Outra coisa não se pode proclamar
No caminho a subir da minha vida
O poema é o teu nome e o teu lugar
Na liturgia quotidiana e repetida.


José do Carmo Francisco   

(Fotografia de autor desconhecido)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Búzio


Búzio

Sofia tem o perfil de sentinela
Na sala povoada por meninas
O olhar abre a cidade na janela
Com cortejo de pressa e rotinas.
Com paisagem de árvores e gruas
Onde sobe material de construção
As chuvas afastam a gente das ruas
Juntando todos de novo em oração.
Sofia tem o perfil de sentinela
Tempo que passou noutra cidade
Há neste céu azul súbita estrela
Que brilha em nova claridade.
Na sombra se aponta o mistério
Pontua o tempo a luz do seu olhar
No Mundo agora em planisfério
A sua voz concentra o som do mar.


José do Carmo Francisco 

(Óleo de Paul Gustave Fisher)   

terça-feira, 18 de abril de 2017

Dissertação sobre um amor


Dissertação sobre um amor

O amor não morre nunca. Todos os dias nasce de novo com a madrugada. Então rompe na escuridão mais negra e do silêncio mais fundo, empurra com força a névoa e canta, canta a idade da sua paixão. O amor não morre nunca. Em 1973 uma menina-mulher chegava à cidade com o sétimo ano do liceu debaixo do braço. Trazia um fogo no olhar, uma luz diferente, mesclada entre as praias e a serra. Sentada no miradouro do jardim da Estrela não via os pombos das aldeias à volta de Leiria nem as gaivotas fugidas à tempestade de São Pedro de Muel. Outra paisagem, outro povoamento. Era uma menina-mulher e as «maçãs do rosto» cheiravam mesmo a maçã. Todo o seu rosto era uma geografia de sentimentos. No seu cabelo apetecia-me semear todos os meus sonhos. E os sonhos dela. Nos seus lábios apetecia-me matar toda a minha sede. E a sede dela. Nos seus ouvidos apetecia-me contar todos os meus segredos. E ouvir os dela. Hoje, 30 anos depois, a mulher-menina mantém intacto o fulgor dessa geografia de afectos. A voz é igual à voz desse tempo inicial, tempo de descoberta e de fascínio. Trinta anos depois, na passagem do tempo, nada se perdeu do timbre, da altura e do calor dessa voz que trazia o campo para a cidade. A voz da menina-mulher abria-me as portas de todos os celeiros, de todas as adegas, de todas as casas, de todos os palheiros. Ouvi-la era ser, de repente, cavador e abegão, pastor e lagareiro num lagar que produz o mais fino azeite da Serra de Aire. Hoje ouvir a sua voz de mulher-menina é estar de novo no meio da eira, saber a gramática das sementeiras, ouvir a campainha dos bois, rezar para que não haja colheitas perdidas, oferecer vinho a quem passa no dia de Pão por Deus. O amor não morre nunca.    

José do Carmo Francisco

(Óleo de Romaine Brooks)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Espuma


Espuma

Os cabelos são o que resta doutra espuma
Das ondas tão pontuais na sua rebentação
De sete em sete nasce uma que é nenhuma
E ninguém conta quando à noite é escuridão.
E o mar deixa de ser mar para ser apenas água
Porque o Sol que vai ao outo lado da Terra
Não define a pronta solução da nossa mágoa
Nem aquece o coração já em pé de guerra.
Os cabelos neste quadro são a moldura
Definida num ângulo novo de esquadria
Mas buscam por todo o lado à procura
E é no rosto que está a fonte da alegria.
Porque é no rosto que o som tem a origem
No olhar está a luz de todo o campo visual
Entre a espuma e o olhar uma vertigem
De sentir esta luz e esta sombra por igual.

José do Carmo Francisco   

(Óleo de Carl Lohse)

sexta-feira, 24 de março de 2017

Uma voz no centro do Mundo


Uma voz no centro do Mundo

As vozes de algumas mulheres, tal como as montanhas, os rios e as planícies, também se integram numa geografia determinada. Circula também dentro dessas vozes o ímpeto do vento nas alturas, o murmúrio das águas dos rios e o silêncio sem fim das planícies.
O mundo de Cristina nasce todas as manhãs na força do rigor inicial dessa voz antiga que se solta dos cadeados da noite e começa a percorrer as encostas do dia.
Depois, no acumular das horas envolvidas em monotonia, Cristina vai organizando a sua gramática de afectos. Conforme a temperatura da resposta, logo se apercebe a origem provável da pergunta telefonada. Na rua em frente, a janela de Cristina desvenda um dos filmes mudos mais frequentes na cidade de Lisboa: o reboque da Polícia Municipal vai recolhendo um a um os automóveis estacionados fora das linhas brancas desenhadas na pedra negra da calçada. Antes tinham passado pela rua raparigas de farda verde despejando papéis brancos nas escovas de borracha do vidro da frente dos automóveis.
Aos poucos, de modo vagaroso mas firme, a voz de Cristina instala a sua ordem no centro do Mundo. Respira na velocidade por si utilizada no discurso com que ordena as entradas e as saídas de informações em circulação, no seu tempo e no seu espaço. Entre vida e morte, luz e escuridão, alegria e desolação, ruído e silêncio, amor e ódio, a voz de Cristina está no centro do Mundo. Centenas de notícias, de recados, de pedidos, de avisos e de recomendações circulam pela força da sua voz. Uma voz sempre capaz de incorporar no seu desenho sonoro o ímpeto do vento das alturas, o ruído das águas dos rios e o silêncio sem fim das planícies.     

José do Carmo Francisco  

(Óleo de Emile Chambon)